O treinador e o vestiário no futebol brasileiro

“Em quem” ou “no quê” o talento humano transforma a personalidade de um indivíduo?

Muitos humanos especiais, experts em habilidades e ou competências diversas, costumam ser afetados em suas personalidades por influência do prestígio social que o status talentoso provoca. Os mundos artístico e esportivo nos apresentam vários desses exemplos.

Em outras áreas da atuação humana costumamos também ver perturbado o comportamento de indivíduos talentosos. Não vou divagar na abrangência do fenômeno, até porque quero me ater ao universo onde atuo desde sempre em minha vida – o futebol! 

O jogador de futebol geralmente perambula “acima do bem e do mal” na comunidade apaixonada pelo jogo, quando o talento que carrega, e vai se desenvolvendo com a prática, faz proezas em campo. Render homenagens à arte e seus artistas é natural manifestação humana.

O futebol brasileiro costuma apresentar grandes e especiais jogadores com vaidades escancaradas, fruto dos talentos que exibem. E nós, simples mortais, costumamos perdoar graves indisciplinas dos vaidosos “fora de séries” com a “míope impressão” que dando-lhes status de intocáveis estaremos blindando futuras performances deles e das equipes que amamos. 

Entremos logo no que move a reflexão deste post!

Filipe Luís, você é, sem dúvidas, um dos talentos precoces e preciosos da nova geração de treinadores brasileiros. Não se deixe abater se alguns considerarem erro a “sinceridade corajosa” com que expôs o conflito que experimentou nos últimos dias.

Você, hoje treinador do gigante Flamengo, assim como em sua brilhante e exemplar carreira de atleta, saiu em defesa de um “futebol limpo, profissional e promissor para o seu time e o Brasil“.

Estamos navegando por águas turbulentas há anos à procura de quem ou aquilo que nos salve em direção das novas e consistentes conquistas no futebol. Quando nos deparamos com alguns desses sinais que acendem luzes ao caminho, não os reconhecemos e abraçamos o “mais do mesmo” de vagas soluções.

Será preciso quebrar, transformar e criar paradigmas se quisermos avançar na construção de um jogo moderno e de um futebol melhor gerido no Brasil e para o Brasil!

Os rebeldes e geniais craques brasileiros, desde o início da formação, precisam de correções necessariamente vindas do clube – dirigentes, treinadores() O ambiente em que nascem e crescem os agride constante e brutalmente. É natural que sejam afetados. Mas “o clube é o tudo” nesse contexto!

Educar indivíduos talentosos para a vida é imperativo no futebol, nos esportes em geral e em qualquer outra área da atuação humana, mas sem protecionismo, paternalismo… – marcas que deterioram a formação humana.

O fato de o Pedro ser ovacionado pela torcida do Flamengo antes e depois do gol que fez no último Fla/Flu – 20/07 – não aumenta nem diminui o valor dessa reflexão. Já vem de décadas a necessidade desse exercício em clubes e entre profissionais no futebol do nosso país.

O comportamento torcedor dos flamenguista e a resposta do Pedro em campo – o gol – não podem deixar o veredito do certo e errado no episódio vivido entre Filipe Luís e Pedro.

Dentre o muito que temos a fazer na formação do futebol brasileiro, é preciso melhor direcionar os processos que promovem talentos e estabelecem hierarquia no futebol dos clubes brasileiros.

Nas conquistas passadas dos times brasileiros – clubes e seleções – a poderosa liderança dos treinadores deu grandes contributos à construção da essência tática e revelação de talentos, para o Brasil e o mundo. Não vou citar nomes, pois certamente cometeria injustiça com a ausência de alguns, tantos que eram. 

Ainda que a cota-parte mais valorizada nas conquistas brasileiras do futebol sempre foram a arte e a criatividade dos seus jogadores, na gestão dessa “fábrica de talentos” era comum que tivéssemos também portentosos “treinadores comandantes de vestiários”.

Estamos tirando o vestiário do treinador brasileiro!     

O treinador é o grande pilar de sustentação da ordem no futebol do clube. É o gestor técnico de uma empresa que produz talentos e jogo e respira e vive dependente dessa produção!

Em todos os métodos e processos que regem a construção do jogo e formação de talentos precisará tomar decisões e fazer valer o seu poder decisório. Assim funciona, precisa continuar funcionando e, pronto!

Quando menciono “vestiário”, me refiro à “gestão técnica do futebol de um clube”. Não tem nada a ver com “dar as chaves do clube ao treinador”, expressão que há algum tempo atrás acusava a incompetência na gestão do futebol desse ou daquele clube. Eu sempre condenei essa solução!

Por mais multidisciplinar e científico que seja o envolvimento técnico à volta do “fazer futebol num clube”, o comando sempre deverá passar pelos protocolos de anuência do treinador. Um clube com interferências técnicas que fogem às protagonizadas pelo seu treinador, não anda!

A ignorante exigência pelo imediatismo dos resultados poderá até continuar existindo“, mas que o treinador esteja pleno no exercícios das suas atribuições enquanto for o “gestor técnico do projeto”. É tiro no pé atropelar decisões dos treinadores na gestão do futebol de um clube. É um “câncer do futebol brasileiro que já viralizou e necessita ser extirpado!

Jogadores, comissões técnicas, pessoal de apoio no clube, dentre outros, têm de ter a certeza de onde vêm e respeitar as ordens técnicas do projeto. O treinador é o “dono do projeto técnico construtor de jogo e revelador de talentos”, apesar de tudo que representa e contribui o clube nessa missão!

Eduardo Maluf, saudoso e magnífico Diretor Executivo de Futebol, preservava a figura do treinador acima de qualquer coisa no projeto futebol dos clubes que trabalhou – Cruzeiro e Atlético-MG. Ninguém no clube, mas ninguém mesmo, contrariava a vibe técnica do treinador.

Muitas das dúvidas que pairam sobre a competência dos treinadores brasileiros passam pela falta de identidade que impusemos ao futebol dos nossos clubes – padrão de jogo e “gestão esportiva do todo-futebol”. As preocupações que há algum tempo afligem o treinador no Brasil o afastaram do estudar e inovar no jogo e na revelação de talentos.

– Treinadores entram e saem dos clubes brasileiros com a insana frequência de três a cinco vezes ao ano!

Em meio às tantas e maléficas interferências no futebol brasileiro das últimas décadas, o “confisco do vestiário” tem sido um grande vilão!

– Por favor, devolvam o vestiário do futebol brasileiro aos treinadores!

Quanto mais me atualizo no conhecimento das questões técnicas do futebol, mais tenho a certeza que o futebol brasileiro pode se encontrar e se dar bem com a modernidade do jogo coletivo jogado nos dias de hoje! Esse encaminhamento beneficiará diretamente as performances coletiva e individual das nossas equipes e jogadores. É preciso virar essa página, logo!

Vamos continuar refletindo sobre isso! O futebol brasileiro agradece!!

Até a próxima!

Foto: Imago

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

2 Comentários

    Meu querido amigo e irmão do coração. Tenho muito orgulho de você. Parabéns, você é o cara.

    Disciplina é tudo em todos, à todos!

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.