“Futebol moleque” ou arte e criatividade?

Vamos e voltamos nos mesmos assuntos, mas com abordagens distintas, o que acaba dando novos rumos ou completando as nossas reflexões. Tudo em prol da qualificação do jogo brasileiro!

O pensar corriqueiro de grande parcela dos apaixonados pelo futebol no Brasil pede a volta do estilo moleque do passado para enfrentar as dificuldades do presente.

Enquanto o De Arrascaeta sai de campo, após o jogo contra o Liverpool, enaltecendo as qualidades táticas do adversário, continuamos achando que temos que jogar um “futebol moleque”.

Gostaria de saber quantos jogadores do Liverpool jogaram futebol moleque para vencer o “timaço” do Flamengo? E mais: qual o perfil de jogo que a Alemanha praticou para ser campeã do mundo na Copa de 2014, no Brasil?

Eu sei que isso pode ser saudosismo e ou “pura paixão de um torcedor”. Mas vejo reflexos desse pensar coletivo influenciando setores de extrema importância no entendimento, concepção e construção do jogo de futebol para a escola do jogo brasileiro

O esporte de alto rendimento de hoje não admite o futebol moleque, como tínhamos antigamente. A menos que queiramos jogar outro jogo. É tudo uma questão de opção!

Imersos em ondas do “sentimento vira-latas” costumamos acreditar que “os outros”  podem ser sérios, fazer certo, ser competentes, cabendo a nós, correr atrás!

Poxa! É duro aceitar isso!

No esporte de alto nível não cabem brincadeiras. É muita ciência e competência, que podem até oferecer oportunidades a arte e a criatividade, mas molecagens, não!

Quando Leonardo, ex-craque da Seleção Brasileira, São Paulo e Flamengo, disse que o jogador médio europeu treina melhor que o jogador médio brasileiro, talvez tenha querido dizer também que precisamos usar nossas preciosas gingas e habilidades de forma mais adequada à exploração das táticas coletivas.

Futebol moleque é uma expressão que considera a forma individualizada e  irreverente com que sempre jogamos esse jogo. Só que o passar dos anos transformaram a importância das habilidades e ou “molecagens com a bola” em um jogo cheio de táticas essencialmente coletivas.

No futebol do passado, mais técnico e com muitos espaços em campo, cabia mais “a molecagem”. Hoje, sem espaços e com o jogo cada vez mais inteligente e/ou objetivo, o saber estar em todos os espaços do campo para enfrentar as dificuldades é mais importante e eficaz.

Ou abolimos o entendimento de futebol moleque que tínhamos no passado, ou refazemos o conceito para a prática de um jogo tão competente que nos permitiria usar a arte e a criatividade como o algo a mais no jogo dos brasileiros.

Um amigo médico, Dr. Rideo Konishi, neurocirurgião, fez um comentário sobre um colega da mesma especialidade, Rogério Zenóbio Darwich, dizendo que ele era o melhor do mundo naquilo que fazia. Que “se divertia” numa sala de cirurgia!

Fiquei assustado e quis saber mais sobre o que dizia o Dr. Rideo sobre o Dr. Rogério. Não é fácil aceitar que um neurocirurgião se divirta operando um paciente, principalmente porque esse paciente, naquela oportunidade, seria eu. Então veio a explicação:

– O Dr Rogério faz o que sabe, o que gosta e com grande competência! Portanto o faz com muita desenvoltura, arte e criatividade!

Acho que essa foi mais uma das traduções magistrais do que representa a atuação do talento no exercício das suas competências. Ele faz com arte e criatividade, pois é muito competente pra isso. A molecagem por molecagem não é arte, criatividade e muito menos sinônimo de eficiência no jogo moderno. O “jogo moleque” que o brasileiro precisa reivindicar nos dias de hoje é a arte individual certa na situação de jogo e espaço de campo certos.

O jogo com abuso inconsequente das individualidades não passa de uma “grande pelada” praticada por atletas de alto rendimento. “Devolver o jogo aos jogadores” é pedir uma coisa que nunca existiu no futebol de resultados. Jogo,  jogadores e treinador são uma coisa só.  Se completam em táticas, arte e criatividade à procura de altas performances coletivas. Grandes equipes nacionais e internacionais revelam ótimos jogadores jogando coletivamente. Vejam o Liverpool, o Manchester City, o Flamengo, o Grêmio e muitos outros.

As táticas coletivas não impedem os craques dessas equipes de jogar bem e criar, ao contrário, organizam o jogo para que a arte também apareça.

Os globetrotters surgiram como uma bela paródia dos jogos da NBA  tais eram os níveis tático, técnico e de habilidade do basquete americano. Poderia ser uma solução para o futebol brasileiro: – inventarmos um time de artistas que brinquem com a bola e o jogo sem a necessidade de vitórias.

Na verdade o jogo de futebol, desde quando nasceu, já era regido por argumentos táticos coletivos. Em recentes depoimentos dos tri-campeões de 70 no México ouvia-se deles a valorização de conceitos táticos coletivos empregados por aquele time cheio de craques. Gerson, o “canhotinha de ouro”, disse mais ou menos assim:

– Aproximávamos para jogar o jogo de passes e o Zagalo também nos pedia sempre para defendermos com os onze jogadores atrás da linha da bola!

São importantes princípios táticos coletivos necessários ao jogo e futebol de qualquer equipe, em qualquer época, mesmo estando repleta de jogadores diferenciados como sendo o “escrete de 70”.

Voltando à comparação das competências dos neurocirurgiões brasileiros, só vejo uma forma do futebol moleque se encaixar no futebol moderno: – com arte e criatividade dos craques que sempre tivemos, mas coordenados por um jogo muito bem jogado taticamente. O jogo coletivo oferece espaços e momentos especiais para os jogadores especiais usarem suas artes.

Talvez estejam falando a mesma coisa, aqueles que clamam pelo retorno do “futebol moleque” e os que sonham com o jogo moderno praticado com a arte e criatividade. Pode ser que tudo não passe de uma forma de expressar.

Eu nunca proibi os jogadores com os quais trabalhei de criar e ou fazer arte com as suas capacidades individuais, apesar de sempre construir jogos organizados taticamente. Arrisco dizer que quase nenhum treinador proíbe.

O problema é que a conta só chega para os treinadores. Eles são os que idealizam o jogo que querem construir e mesmo sem completar sua obra já deixam seus cargos para outros que chegam cheios de boas intenções, mas que também terão curto tempo para resolver.

A comunidade brasileira do futebol precisa aprender a conviver com a necessidade de se ter o treinador à frente do jogo da sua equipe por mais tempo se quiser ver jogos bem jogados taticamente, com arte e criatividade.

Abraço a todos!

 

 

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