O treinador e suas interferências no jogo

Treinos e jogos são alvos importantes para o acerto tático da equipe.

A intenção é sempre melhorar o jogo, mas treinadores desatentos costumam “quebrar” a dinâmica tática de suas equipes quando interferem insistentemente em pormenores de posicionamentos e ações dos seus jogadores.

O sistema tático é a estrutura de distribuição de “peças” em campo que sustenta plenamente os movimentos defensivos e ofensivos num jogo de futebol. Existem variações no posicionamento básico de cada sistema que atendem a momentos específicos de defesa e ataque, mas que não passam de variações da estrutura original.

Se colocarmos um time em campo, de “Sub-15 a Sub-40”, com a simples orientação tática posicional dos sistemas táticos de jogo teremos um alto nível de organização de defesa e ataque. Já fiz experiências para chegar a essa conclusão!

Mas, há treinadores que não se dão por satisfeitos com isso, ou não têm noção dessa eficiência, e passam a orientar milimetricamente posicionamentos e ações aos seus jogadores em treinos e jogos. Em cada metro que a bola anda no campo queremos instruir novos posicionamentos e ações ao jogo e jogadores. A dinâmica tática sofre muito com isso!

Em meus primeiros anos de treinador não conseguia entender como adversários com perfis de treinos mais simples que os meus conseguiam jogar melhor. “Eu não enxergava” que as muitas instruções de posicionamentos e ações que eu passava, mais atrapalhavam que ajudava!

O sistema tático e suas variações já são ferramentas preciosas de orientação posicional para uma infinidade de situações e/ou momentos do jogo.

Quando o treinador começa a determinar essa ou aquela movimentação, esse ou aquele posicionamento para funções ou posições – ofensivas e defensivas – poderá estar dizendo aos jogadores e à equipe que, ao invés das inúmeras possibilidades que têm para jogar, devem usar somente aquelas propostas. Literalmente está podando jogadores e jogo.

Conceitos e princípios táticos – defensivos e ofensivos – são argumentos suficientes para fazer a equipe funcionar no ataque e na defesa. A assimilação e prática desses instrumentos de inteligência de jogo é que fazem um time jogar. Vamos interferir basicamente aí, no pleno desenvolvimentos dos conceitos e princípios táticos e suas conexões.

O treinador precisa interferir bem menos do que faz para que ataque e defesa funcionem com naturalidade e desenvoltura no jogo que propõem.

O modelo de jogo do treinador se consagrará bem mais pela implantação do macro que do micro. O paradigma que nos obriga acreditar que o futebol se ganha nos detalhes induz os treinadores a interferir além da conta na orientação sistêmica do jogo. É tanto “vem pra cá”, “vai para ali” e “passa pra esse ou aquele” que só faz confundir a cabeça dos jogadores. São mexidas que invariavelmente contrariam a dinâmica do jogo.

Já perguntei a alguns treinadores brasileiros amigos se, quando jogadores, na hora do jogo, eles se lembravam das muitas instruções pormenorizadas que o seus treinadores lhes passavam. As respostas foram categóricas: – não se lembravam de nada!

Estas ideias não têm nada a ver com a simplificação negligente de um jogo tão complexo quanto o futebol. É justamente contra essa gafe que proponho entender, conceber, construir e gerir o jogo de futebol com o foco principal na leitura e aplicação dos conceitos e princípios táticos macros. Interferir inadvertidamente em detalhes deste universo de complexidade desconexa o jogo.

O treinador que faz dos detalhes o principal alvo de acertos táticos, quase nunca conseguirá acertar o seu jogo. A escola do jogo brasileiro está repleta destes procedimentos.

Interferir em demasia nos detalhes de lances do jogo e dos treinos afeta prejudicialmente em dois pontos preponderantes do ensino-aprendizagem-treinamento:

  • no entendimento tático de jogadores e equipe, quando ficam limitados nas suas tomadas de decisão em treinos e jogos;
  • no lastro técnico e de habilidade dos jogadores, que poderão fazer coisas com a bola e consequentemente com as respostas táticas aos problemas do jogo, que treinador nenhum poderá fazer com as suas instruções, pelo menos enquanto treinador.

Algumas regras de posicionamentos táticos em determinados momentos ou situações específicas do jogo podem e devem ser aplicadas, mas que façam parte de ajustes naturais às posições e movimentações contempladas pelo conceito macro do sistema tático do jogo.

Resumindo: não é preciso inventar posicionamentos e movimentações mirabolantes sendo que os jogadores já têm suas zonas táticas a serem ocupadas nos vários  momentos ofensivos e defensivos que requerem o jogo.

O fato de orientarmos demais nossos comandados nos detalhes do jogo, constrói um perfil de jogador brasileiro dependente das instruções o tempo todo. Nós, treinadores brasileiros, costumamos até dizer que temos que dar “tudo mastigado” aos nossos jogadores! Será que é por aí que vamos mudar esse perfil?

A riqueza dos treinamentos em formatos de jogos, método moderno e explorado no mundo todo, está justamente no estímulo dado aos jogadores e equipes para a autonomia da tomada de decisões táticas.

A ideia de jogo é balizadora dessas tomadas de decisões táticas. Se o treinador interfere constantemente nas ações dos jogadores e da equipe em treinos e jogos, ainda que não tenha essa intenção, estará justamente cortando na raiz o aprendizado-treinamento da dinâmica do modelo de jogo que ensina.

A tendência é que este modelo de construção leve a um jogo confuso, sem identidade tática e que funciona como colcha de retalhos de cores distintas – um pedaço de jogo em cada espaço do campo, cada qual jogado da maneira que melhor convém aos jogadores envolvidos. Não haverá “identificação conceitual entre os pedaços” e muito menos com uma ideia tática macro.

Hoje me aprofundei mais em questões do treino e do jogo por acreditar que são pontos importantes na evolução do futebol brasileiro. Somente o treinador poderá ser o agente transformador nas necessidades aqui abordadas. Precisa aceitar e querer mudar!

Peço desculpas aos desportistas que me acompanham nesse espaço e que não têm envolvimento direto na construção do jogo.  A vocês digo com certeza que melhorando o treinamento e o jogo no aspecto abordado traremos mais prazeres à todos que gostam de um futebol bem jogado.

Ainda voltaremos a esse assunto!

Até breve!

Foto: Reprodução Youtube

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Pin It on Pinterest

Share This