O futebol brasileiro e a “alegria no treino”

Um dia o ex-craque Pedrinho, hoje comentarista de futebol do Sportv, me perguntou:

Se já treinamos há tempos com os mesmos tipos de treinos que os europeus, por quê não jogamos taticamente como eles?

Ainda não cheguei a conclusões que encerram verdades claras para responder a isso, mas passei a ser mais observador na montagem e aplicação das minhas tarefas e de outros profissionais que tive oportunidade de acompanhar de perto.

Como lidamos com o treino? O quê, conscientemente, acreditamos estar transferindo do treino para o jogo? O quanto valorizamos o treino enquanto ferramenta transformadora do jogo?

Em um bate-papo sobre treinamento, um amigo do futebol me disse certa vez: – você acredita muito no treino, mas não é só isso que ganha jogo! Tem muita “sacanagem” à volta do futebol que a gente precisa estar atento!

Eu esperava que ele fosse me dizer algo sobre metodologia de treino, perfil de atleta, cultura de jogo, etc., mas veio com mais essa “preciosidade”!

Desde que estou no futebol escuto que o treino deve ser praticado com alegria. O ambiente do treino deve ser descontraído, dentre outras coisas.

O esporte é sinônimo de alegria em várias circunstâncias. Mas no alto nível, sob a pressão que sofrem seus protagonistas, não se pode considerar o treino dos seus fundamentos um palco  para diversões.

Um parêntese que corrobora com a nossa reflexão: Leonardo, atualmente dirigente esportivo de clubes europeus, disse certa vez:

– O jogador médio europeu é melhor treinado que o jogador médio brasileiro!

Qual seria o alcance dessa fala?

Quando o Leonardo diz “jogador médio”, não dá maiores referências sobre o que isso significa. Acredito que jogadores médios são quase a totalidade daqueles que vemos praticando o futebol profissional pelo mundo. Exclui-se os “diferenciados”, que estão em dois ou três níveis na parte superior da pirâmide e os “medíocres” que nem chegam a competir profissionalmente. Os que vemos competindo por todos os clubes do Brasil e do mundo são os “jogadores médios”.

É claro que entre os médios poderíamos distinguir níveis qualitativos diferentes, e acho até que é neste ponto que podemos encontrar a reflexão do Leonardo. O desenvolvimento do talento esportivo, assim como em outra área qualquer da performance humana, depende fundamentalmente do treino e nos parece que o jogador europeu está mais consciente e melhor adaptado a isso.

– Como os times brasileiros encaram o treinamento em suas semanas de trabalho?

Geralmente com alegria além da conta. Se, após uma sessão de treinos, perguntarmos aos jogadores brasileiros o que treinaram, poderemos nos assustar com algumas respostas. Há jogadores que não saberiam dizer o que fizeram.

Tá tudo relacionado ao nível de concentração que levam para o treino e também à cultura do que consideramos treinamento e sua importância no futebol. Costumamos ir a campo “brincar ao invés de treinar”, pois interpretamos mal o conceito de alegria no treino. Podemos ir alegres para todas as sessões de treinos da semana, pois estamos “fazendo o que gostamos”, mas precisamos estar “sérios e concentrados” para usufruir da riqueza instrutiva que cada uma delas nos trás.

Como podemos cobrar na fase adulta um nível de jogador diferente do que os que encontramos no futebol brasileiro?

As respostas a esta e outras perguntas podem estar na qualidade e/ou seriedade dos treinos que praticamos.

Isso é muito abrangente! Não me refiro a fazer um treino bonito e moderno como fazem os melhores treinadores e ou equipes do mundo. Isso já fazemos, como bem disse o Pedrinho. Muito menos, que jogadores e equipe estejam sérios e tensos para treinar.

O quê estamos treinando? O quê os jogadores e as equipes estão absorvendo dos treinos? O quê isso tudo que treinamos tem a ver com o jogo que queremos construir? Será que os treinadores saberiam responder a essas perguntas com a consciência investigativa que precisa ter?

O treinamento para alta performance deve começar sério já nas primeiras idades de descobrimento e desenvolvimento dos talentos.

E o mais contraditório nisso tudo e que talvez venha perturbando o nosso entendimento do que seria a alegria no treino, é que na pequena idade “o talento se desenvolve brincando” e precisa “treinar brincando”, mas TREINAR brincando!!

Quer coisa mais séria que a garotada jogando uma “pelada de rua”, ou de futsal, ou num jogo de várzea?…

Alegria e ousadia é o que queremos dos nossos jogadores e jogo. Mas, se não treinarmos seriamente os fundamentos que desenvolvem o talento e o jogo nunca mais seremos alegres e ousados em nossa maneira de jogar. Principalmente neste perfil de jogo que hoje é praticado!

O futebol do passado era técnico e o moderno é tático. A mente dos nossos jogadores tem de estar presente em treinos e jogos para “a coisa funcionar”. Esse é o ponto!

Antes de um treino, após mencionar palavras do Van Gaal sobre a “importância de se treinar o cérebro e não somente as pernas dos jogadores”, perguntei a um dos meus comandados o quê o treinador holandês queria dizer com essa frase?!

– Ahm?! O quê?! Desculpe professor! Eu não prestei atenção no que você estava falando!!!

Onde estava “a cabeça desse jogador” para iniciar uma sessão de treino, com vários itens do nosso jogo a serem desenvolvidos? E o mais sério é que  se tratava de uma equipe adulta!!

Este jogador e muitos outros vão aos treinos à espera que a bola comece a rolar para que possam “brincar”! Foi isso que aprenderam desde criança e está na cultura do nosso futebol. Aí, as coisas mudam no mundo e não conseguimos acompanhar, ou queremos que elas voltem a ser como antes.

É tudo muito sutil, mas importante também!

Será que devemos imputar à cultura do futebol brasileiro todas as responsabilidades dos nossos erros? Cultura se quebra e se reconstrói! É fácil? Nada nunca foi fácil, mas o homem sempre fez, quando quis!

As palavras do Leonardo batem fundo em nossas mentes e são realidade absoluta quando assistimos a qualidade do jogo que ainda jogamos: muitos erros nas tomadas de decisões táticas, na execução dos gestos técnicos e na organização do jogo.

Este é um dos temas que mais aguçam as minhas reflexões!

Não fique triste futebol brasileiro! Tem coisas boas acontecendo pra mudar isso e para melhor!

Abraço!

 

 

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