Renato Gaúcho e a posse de bola

– O quê é a posse de bola?

– Um rapaz leva uma moça a um barzinho…

Se pronunciou mais ou menos assim o Renato Gaúcho em trecho da entrevista no pós-jogo da semifinal da Copa do Brasil em 30/12/20.

Com uma metáfora hilária e até certo ponto esclarecedora, o Prof. Renato deu suas explicações sobre como o Grêmio conquistou a vaga para a final do torneio nacional mesmo com posse de bola inferior à do adversário.

A metáfora utilizada não virá ao caso neste espaço, mas me motivou continuar falando sobre este importante conceito tático de jogo.

Posse de bola é uma “ferramenta tática” sem a qual não se joga o jogo de futebol. É troca de passes sequenciais com objetivos claros de resolver problemas de campo em uma partida. Geralmente é usada para dar solução às ações ofensivas, mas pode ser recurso tático defensivo também.

O jogo de futebol é coletivo, jogado em um espaço de campo muito grande, com algumas regras que limitam as ações dos jogadores e a equipe, com companheiros e opositores no confronto, dificuldades climáticas e de pisos, com pressão psicológica, jogado com “bola redonda”, e outras coisas mais…

Em face às dificuldades e à natureza do próprio jogo, a posse de bola costuma ser um dos recursos táticos que transmitem mais inteligência às ações de campo. Esse jogo nasceu com incidência expressiva de duelos individuais e muita truculência. Desde sempre o seu objetivo é “colocar a bola na casinha do adversário”. A certa altura, do jeito que era praticado passou a não agradar mais, e a troca de passes e os dribles surgiram para ajudar na tarefa.

A técnica dos fundamentos – passes, chutes, domínios… – e a habilidade são recursos individuais que sustentam as diversas ações táticas do jogo. Os lances individuais são tão vistosos aos olhos do público e trazem tantos resultados, que costumam nos fazer pensar que apenas eles bastariam ao jogo.

Mas, não! O jogo é constituído de muitas coisas, que às vezes nem se usa, mas pontualmente resolvem parte do complexo universo tático que cria.

A posse de bola, intencional e objetiva, chega como solução a muitos problemas do jogo.

O Grêmio do Renato joga respaldado pelo poder da posse de bola há muito tempo. O seu time já deu grandes lições ao jogo dos brasileiros fazendo posse de bola de invejar até times europeus. Na passagem de fase da Copa do Brasil sobre o São Paulo, o Grêmio usou e abusou da posse de bola defensiva, posse de bola de meio-campo e posse de bola ofensiva. Em volume de posse parece que o São Paulo ganhou, mas o Grêmio também se utilizou dela em momentos especiais e determinantes para alcançar seus objetivos no jogo em questão .

O que me deixa entristecido quando falamos da posse de bola no Brasil é que parece que ela é avessa às vitórias. Quem faz volume grande de posse de bola está errado. Acreditar nisso seria a mesma coisa que matar os valores do Barcelona do Guardiola que foi um dos marcos táticos mais importantes do futebol de todos os tempos. Era um jogo sustentado em posse de bola, principalmente, e em vários outros conceitos táticos. Deu show e transformou o Ludopédio no mundo.

Continuando no Brasil, quando ganhamos com posse de bola volumosa a valorizamos, quando perdemos a maldizemos. Quando se vence sem a posse de bola volumosa costumamos desmerecer o jogo vencedor dizendo: “mesmo o adversário tendo mais posse…”

Ou seja, para nós brasileiros, a posse de bola não serve a nada. Parece ser um simples adereço tático que usa-se ou não, mas não nos interessa.

O jogo de passes é o conceito tático coletivo mais importante no futebol. Enquanto trocamos 400, 500, 600, 700 passes por jogo, praticamos alguns chutes, outros poucos dribles, cabeceios, condução de bola, etc. Sem o passe não há jogo.

No entanto, aqui cabe uma importante reflexão!!!

O que fazemos com a posse de bola ofensiva que praticamos? Andamos mais pra frente, para os lados ou pra trás com a bola? É lenta ou rápida? Os passes são de boa qualidade técnica? Faz parte da ideia tática de jogo, e do inconsciente dos jogadores e da equipe, ou aprece quando “dá na telha” dos jogadores ou da equipe?

Importante acrescentar outros detalhes ao conceito da posse de bola no futebol: as triangulações, ultrapassagens, assistências, passes longos e curtos, lançamentos, passes em profundidade, dentre outros elementos técnico-táticos do jogo, são componentes indissociáveis da posse de bola. Com que volume e frequência o treinador explora e ou dá foco a estes instrumentos em seu jogo de posse de bola?

É preciso sair dessa página! Vamos entender um pouco mais o jogo na plenitude da sua essência tática. O futebol é o esporte coletivo mais influenciado pelo imponderável, é fato. Existem estudos e pesquisas que apontam para isso. Mas, já na terceira década do Século XXI, trata-se de um jogo taticamente decifrável e que aceita ser construído criteriosamente. O futebol brasileiro precisa avançar.

Costumo dizer que a principal mudança que vamos assistir com os benefícios da qualificação do jogo brasileiro será ter muito mais confrontos em que os dois times jogariam melhor aos padrões do que é moderno. As vitórias, derrotas e empates continuarão existindo para forjar campeões, rebaixados, times de meio de tabela e etc., mas com jogos melhores!

O Renato Gaúcho é mesmo um professor de futebol dos mais apreciados no Brasil. Pela torcida do Grêmio, nem se fala. Às vezes, sem se dar conta, ou dando muita conta, põe todos a refletir sobre o jogo!

Sócrates, o pensador grego, aprenderia muito com ele!

Até… 

Foto/Renato: Lucas Uebel/Grêmio

 

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