Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras – “iguais, mas diferentes”!
Coincidentemente, os três clubes brasileiros melhor classificados na Série A são aqueles que estão apresentando argumentos táticos muito interessantes em seus modelos de jogo.
Outras equipe nacionais estão em bons caminhos também, mas… me permitam, hoje, falar apenas dessas três.
Em minhas costumeiras caminhadas matinais os pensamentos costumam ir longe ao encontro de ideias sobre o futebol, geralmente o brasileiro. Há uns dias atrás, o jogo jogado por Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras me levaram a essa reflexão, que vou dividir com vocês.
A mente girava em várias direções, conectava ponto a ponto ideias que seriam capazes de preencher a composição deste e de outros posts. Ainda bem que sempre tenho às mãos os bons e velhos companheiros “lápis e papel” para registrar o que vem à cabeça. Vou tentar ser lúcido nesta abordagem!
Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras estão com modelos de jogo padronizados em vários comportamentos táticos – organização posicional defensiva e ofensiva / proposição ofensiva com ótimo jogo de passes / linhas aproximadas pra defender e atacar / marcação alta e pressionante / pressão na bola em todas as zonas do campo e situações de jogo / dentre outros – tudo harmonizado em admiráveis “unidades táticas ofensiva e defensiva”.
Falando assim, parece que as três equipes jogam taticamente o mesmo jogo. Aí é que está a riqueza do futebol e a confirmação de uma das regras táticas que caracterizam o entendimento desse jogo – cada treinador constrói o seu jogo, baseado em suas percepções, concepções, elenco, métodos de treino…
Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras usam e abusam dos mesmos princípios, conceitos e comportamentos táticos do jogo moderno, mas o fazem de maneiras distintas e muito particulares conforme as ideias dos seus treinadores e as diferenças nos elencos. As três equipes apresentam escancaradamente arte e criatividade coletivas e individuais em seus jogos, mesmo com composições de elencos distintas (veja mais sobre esse tema no post anterior).
O Cruzeiro do Leonardo Jardim me parece ser o time com o jogo mais próximo do apresentado por grandes equipes europeias – com muito rigor na prática de alguns princípios táticos. Talvez por isso, costumamos ouvir que o time cruzeirense é composto de jogadores simples, mas “muito disciplinado taticamente”.
– Discordo veementemente! O Cruzeiro tem ótimos jogadores e um especial modelo tático de jogo!
E, também, aproveito a deixa pra desafiar:
– O jogo do time cruzeirense agrada a sua torcida?
Falo assim, porque nos últimos anos temos vivido um dilema quanto a identidade tática do futebol brasileiro, que nos remete a acreditar que a “europeização do nosso jogo” é mal que se deve evitar. A modernização dos métodos de treino e da forma de jogar incomodaram sobremaneira o futebol no Brasil. Tirou o jogo da mais simples e confortável essência técnica e o conduziu para a complexa e engenhosa natureza tática. Atingiu em cheio o nosso “Calcanhar de Aquiles” da construção do jogo, que se sustentava na responsabilização de “craques que resolviam“!
Quando penso na qualificação do jogo brasileiro, não procuro saber de onde vêm os melhores modelos táticos a copiar. Vislumbro sempre um jogo de qualidade, que explora o potencial habilidoso dos seus jogadores, a cultura brasileira da ofensividade sob o respaldado de tudo o que há de moderno taticamente para a sua construção.
Isso que me trouxe à analise dos modelos de jogo dos treinadores de Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras. Três times jogando jogos muito bem construídos. Flamengo e Palmeiras, há alguns anos, têm monopolizado o protagonismo da qualidade de jogo em nossos campeonatos. “O Cruzeiro acaba de chegar”, mas marcando presença.
O Flamengo do Filipe Luis parece ser a equipe mais brasileira praticante do jogo moderno em nosso país. Aliás, o Flamengo é fenômeno a ser estudado. Possui DNA técnico-tático de jogo que perpassa gerações de treinadores e jogadores. Não conseguirei traduzir aqui o jogo flamenguista e o quanto as “influências do ser Flamengo” impactam seus jogadores e treinadores! Mas, mesmo com as minhas limitações…
…o Flamengo tem mantido traços do DNA de jogo propositivo que costumeiramente apresenta “temperado” na aplicação de conceitos táticos interessantes – linha defensiva alta e inteligentemente atuante / proximidade dos setores da equipe, pra atacar e defender / reação à perda e pressão na bola consistentes e constantes… dá gosto ver! Méritos destacados do treinador!
O Filipe Luis, precoce, habilidoso e perspicaz, como costuma ser todo humano talentoso fora de série, explora heranças ao mesmo tempo que aplica magistralmente táticas modernas no jogo flamenguista.
Já o Palmeiras do Abel Ferreira carrega em suas dinâmicas de jogo, defensivo e ofensivo, componentes táticos do jeito brasileiro de jogar, mas recheado de conceitos que caracterizam o jogo moderno – já citados anteriormente.
Jogo brasileiro pra cá, jogo moderno pra lá, não significa distinção entre o bom e o mal futebol jogado. Trata-se de um chamado ao “choque de atenção” para os clubes no Brasil em favor da mobilização pelo resgate do poder tático-habilidoso do jogo brasileiro sustentando-se na modernidade da construção do jogo.
O leitor mais atento vai perceber que as diferenças táticas entre os perfis dos jogos em análise são pequenas, ao mesmo tempo que impactantes. Justificam plenamente a escolha do título deste post.
O Jardim realizou no Cruzeiro o sonho de consumo dos treinadores brasileiros: desenvolver grande pressão na bola em todos os setores do campo e situações de jogo e dar velocidade à circulação de bola. É bonito ver, também!
Outros detalhes: o Flamengo precisa da bola pra ter o seu jogo sob controle. Já Palmeiras e Cruzeiro o fazem sem a bola, também. Os times do Jardim e do Abel são recheados de jogadores que correm para trás mais natural e prazerosamente. Frequentar mais vezes e por mais tempo os momentos de defesa organizada e transições defensivas parece não causar transtornos à ofensividade dos seus jogos.
Não estou com isso rotulando Cruzeiro e Palmeiras de equipes defensivas. Esclarecendo apenas que, quando necessitam marcar o fazem bem feito e com aplicação responsável e prazeirosa. Considero até o jogo dessas duas equipes em patamares de equilíbrio tático mais desenvolvidos.
O Palmeiras cumpre à risca a aplicação de conceitos táticos do jogo moderno, mas o faz sem rigores na organização posicional. Nunca se vê o time palmeirense desorganizado em campo, mas sempre com espaçamentos variados entre jogadores e estruturas.
– Aonde eu quero chegar com as avaliações táticas das três equipes melhor pontuadas do futebol brasileiro?
– À riqueza de argumentos táticos que o modus operandi construção do jogo moderno pode levar o futebol brasileiro!
Três clubes gigantes, “ainda recheados de jogadores brasileiros”, em ambiente genuinamente brasileiro de fazer futebol conseguem aplicar eficiência, eficácia e beleza ao jogo de suas equipes. As três gigantescas torcidas, a mídia especializada e a comunidade futebolística em geral têm rasgado elogios ao que estão vendo.
– Essa é a europeização do jogo brasileiro?
– Não! É o Brasil e o potencial do seu futebol dando passos em direção à modernização do seu jogo!
Três times, três modelos de jogo distintos, bastante conceituados taticamente e muito bem construídos. Fazem jogos bonitos e medem forças de igual pra igual, quando se encontram. Vários jogadores das três equipes têm se valorizado individualmente devido à eficiência e eficácia coletivas das suas equipes…
– Sigamos em frente!
Fotos: Thiago Ribeiro / Marlon Costa / Marcelo Zambrana (AGIF)
