O “encaixe tático”- aparece ou busca-se?

Infelizmente a equipe não se encaixou e…

Agradeço ao Clube… pela oportunidade, aos dirigentes…, aos jogadores…, etc., etc.!

Reconheço que o clube me contratou para dar resultados! Como não aconteceu…

Essas expressões viraram jargões justificativos dos treinadores brasileiros que às suas maneiras têm tentado amenizar as adversidades que sofrem na conjuntura do futebol brasileiro.

Eu costumo dizer:

O futebol brasileiro é tão perverso com os seus treinadores que os faz acreditar que, quando saem de um clube, a culpa é exclusivamente deles! Um absurdo!

O treinador Renato Gaúcho, que chegou a ótimos níveis de competências e conquistas na profissão, se demitiu do Fluminense dando “um tapa simbólico e contundente” na conjuntura futebolística brasileira atual. Que não seja minimizada a importância da sua atitude!

Apesar das justificativas do Renato terem sido apontadas para as mídias sociais, está no mesmo pacote das suas razões a revolta contra o estado de coisas atual do futebol brasileiro.

A verdade é, que o Renato Gaúcho faz falta ao protagonismo do nosso futebol. Espero que ele reconsidere sua decisão e volte logo, pois ajudará mais de dentro, que de fora!

O “status quo” do nosso ambiente convida, vez ou outra, seus profissionais a esse tipo de atitude! Ao longo dos anos tem “chovido canivete” no “modus fazer futebol do Brasil” e pouco ou quase nada tem sido aproveitado como “choque de atenção” para que acordemos e mudemos algo!

Precisamos entender melhor e mais abrangentemente sobre “o negócio futebol”, com o qual mexemos: empreender com as ferramentas certas; com discursos e tempos certos; dentre muitas outras necessidades, para que essa indústria cresça.

Vou me aprofundar naquilo que quero dizer com as mensagens que trazem as três frases que iniciam o meu texto.

Quando um clube contrata um treinador, está contratando um conjunto de ideias, um perfil tático de jogo e de liderança, enfim, um profissional que se encaixa na cultura esportiva do clube e contribua para o reparo e ou crescimento do projeto futebol, etc., etc. e etc.

Quando um treinador diz “infelizmente não encaixou; as coisas não aconteceram como deviam”, “o clube tem razão…”; e muitas outras “mea culpas”, não está contribuindo para as mudanças que desejamos e precisamos! Mas, é a saída que encontram para amenizar a pressão ignorante e escandalosa que sofrem!

O encaixe tático de um jogo não se acha por um acaso das circunstâncias ou vontade e características dos jogadores. Essa mágica necessária aos projetos de construção de um jogo de futebol é realidade que pode ser alcançada em qualquer clube. Só que, em uns, mais rápido que outros, com melhores estruturas gerais que outros, com projeto futebol mais bem planejado que em outros. Enfim, o “encaixe tático” sempre será alcançado, quando tudo no clube conspira para isso.

Ainda assim, o tempo de cada encaixe é sempre distinto de clube pra clube!

O importante dessa reflexão é que o projeto que constrói o jogo para um clube de futebol é eminentemente técnico-processual e demanda competência, tempo, estruturas de pessoal – elenco, inclusive – científica e física – necessariamente nessa ordem

Assim como muitos outros treinadores, já consegui construir ótimos modelos de jogo com elencos que eu não havia escolhido, mas quando falo da necessária qualidade do elenco, me refiro principalmente a um grupo de jogadores afeitos ao perfil de jogo do treinador que o clube contrata.

Quase frequentemente, os treinadores brasileiros precisam se virar com um vestiário composto de jogadores que não conseguem responder às suas ideias táticas de jogo. Não existem melhores ou piores nessa análise, apenas incompatibilidades para a conclusão exitosa de um projeto técnico de futebol. Simples, assim!

Portanto, eu nunca “espero para que as minhas equipes se encaixem taticamente”! Eu parto convicto na direção do encaixe tático que eu tenho certeza que o meu modelo de jogo alcança.

Só que o clube tem de estar com o treinador nessa caminhada. Trocar treinadores insanamente à busca do “bendito encaixe tático do jogo” é tentar construir uma casa de cima pra baixo!

– O projeto técnico do futebol de um clube é obra de várias mãos e precisa ser abraçado desse jeito!

Quando menciono a imperial necessidade de bons e compatíveis elencos de jogadores como parte da estrutura pessoal do projeto futebol de um clube, me refiro também ao treinador, componente-chave dessa estrutura.

Já toquei nesse tema em outras reflexões há anos atrás e volto a fazer!

Andamos trocando tantos treinadores em nossos clubes, que já perdemos a referência de qualidade para avaliarmos os nossos “professores”!

Fernando Diniz, assim como o Renato Gaúcho, está entre os poucos treinadores brasileiros que tocam com sabedoria e indignação nas “feridas do nosso futebol”!

Recentemente, em um de seus inteligentes desabafos, Diniz mencionou traços da nossa ignorância futebolística, quando ao avaliar jogos e campanhas só e convenientemente se deixa levar pelos resultados. Derrota ou vitória é o que move o humor e o conceito sobre qualidade do jogo jogado pelos nossos times. Sábia e resumidamente apontou um dos buraco sem fundo para os quais estamos conduzindo o nosso futebol brasileiro.

Os clubes brasileiros precisam dar ao “projeto futebol”, que idealizam e ou constroem, a necessária competência técnica para que se realize com qualidade. Bons projetos de futebol espalhados pelos clubes do Brasil trará qualidade ao jogo em geral e aumentará o nível dos nossos campeonato e a competência geral do negócio futebol. Todos ganham, apesar de continuarmos tendo vitórias, empates e derrotas na trajetória dos clubes.

Jogadores nós temos! Que precisam banhar-se de cultura de jogo diferente da que oferecemos hoje. Mas, continuamos produzindo ótimos jogadores em nosso pais!

Os treinadores estrangeiros que aqui chegam ficam admirados com o que vêm! Carlo Ancelotti, ainda não externou escancaradamente sobre isso, mas sem esforço, já se vê o brilho de satisfação e espanto nos olhos do italiano quando fala das opções que tem para compor a Seleção!

Temos treinadores, também!

Precisamos é qualificar “o fazer futebol brasileiro”! E a parte mais necessária e que nos dará as melhores respostas está no “projeto técnico”:

tempo de trabalho para treinadores competentes, escolhidos com critérios; elenco de jogadores compatível às ideias de jogo do treinador contratado; estruturas física, científica e de pessoal que viabilizam o esporte de alto rendimento, convicção e crença no que está fazendo…

– …ou seja, “Projeto Técnico” na extensão máxima do que isso representa!

Alguns clubes brasileiros, maiores e menores, têm dado bons exemplos nessa direção, mas em muitos casos, muitos mesmo, continuamos no “modo reativo”, “mais do mesmo”, à espera de alguns milagres!

– Ah! Já ia me esquecendo! O projeto futebol de um clube precisa contar também com as reais possibilidades das vitórias não chegarem no curto prazo. Faz parte “desse negócio” e, não aprender isso costuma representar o fracasso em quase todos eles!

Nas partes dessa minha reflexão em que desviei do aprofundamento sobre o “encaixe tático” proposto em seu título, foi pra tocar em pontos da “gestão técnica” que tem tudo a ver com as respostas do campo. Aliás, não há como distanciar o campo do “modus fazer futebol do clube”.

Surfando na onda dos “movimentos SAF do Brasil”, que os investidores tragam muitas das lições que estão nos livros que usaram para empreender em seus negócios particulares. O futebol brasileiro de alto rendimento não é carente de treinadores e jogadores! Precisa é de ideias e projetos esportivos que interpretem, da primeira à última página, as diretrizes do bem gerir o esporte de competição!

RB Bragantino e EC Bahia têm dado ótimos exemplos de gestão esportiva no futebol. Estão aqui, bem próximos de nós, vivendo sob as influências das mesmas culturas de país e esporte, e conduzindo projetos técnico-esportivos muito interessantes! É só ver, e aprender!

Acho que o texto ficou um pouco extenso! Mas, as palavras foram brotando sem parar, então, não quis parar! Fiquem um pouco mais na cama nessa manhã de domingo e leiam tudo! O futebol brasileiro precisa de você

Abraço, amigos!

Fotos: Matheus Lima / Vasco – Marcelo Gonçalves / FFC

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